NAVALHA NA CARNE NEGRA

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EQUIPE | TEAM

Direção Geral e Dispositivo Cênico: José Fernando Peixoto de Azevedo;

Atores: Lucelia Sergio, Raphael Garcia, Rodrigo de Odé;

Vídeo: Isabel Praxedes, Flávio Moraes; Iluminação: Denilson Marques;

Direção de Arte: Criação Coletiva; Assessoria para Trabalho Corporal: Tarina Quelho; Programação Visual: Rodrigo Kenan; Produção: @corpo rastreado; Fotos: Isabel Praxedes


A peça de Plínio Marcos, que no ano passado completou 50 anos, é tida como
um clássico do “teatro marginal”: aquela cena que fazia ver a “escória da sociedade”.
No caso de Navalha na carne, figuram três personagens, Neusa Sueli, Vado e Veludo,
respectivamente, uma prostituta, um cafetão e um camareiro gay, que, nas palavras do
crítico teatral Décio de Almeida Prado, fazem parte de um “subproletariado” – “uma
escória que não alcançara sequer os degraus mais ínfimos da hierarquia capitalista”.
Se muitos a consideram uma obra “datada” sob alguns aspectos, de nossa parte
pretendemos friccionar Navalha na carne contra nossa própria pele – a realidade, a
experiência e a pesquisa de uma atriz, dois atores e um diretor pretos, que vêm
construindo suas trajetórias através de uma proposta estética que articule a presença
preta na cena e na sociedade contemporâneas: José Fernando Peixoto de Azevedo,
dramaturgo, diretor teatral e professor da Escola de Arte Dramática da USP, foi diretor e
fundador do Teatro de Narradores (1997-2017) e colaborador do grupo Os Crespos;
Lucelia Sergio, da Cia Os Crespos (SP); Raphael Garcia, do Coletivo Negro (SP); e
Rodrigo dos Santos, da Cia dos Comuns (RJ), grupos que tem extensa pesquisa teatral
sobre o tema.


DO CORPO NEGRO


A problemática do corpo preto e seus históricos processos de marginalização
social servem de mote central para nossa montagem, que pretende lançar luzes sobre
algumas questões relativas à hierarquização social vigente nas sociedades
contemporâneas. Essas questões atravessam o texto de Plínio Marcos e reverberam na
própria produção teatral hegemônica em nosso país. Quem são esses “marginais” de
Plínio Marcos hoje em dia? Onde se encontram? Como vivem? Como lidam com seus
desejos e necessidades? Qual sua expectativa de vida? Será que se reconhecem como
parte da “escória”? O que esperam da sociedade – se é que ainda esperam alguma coisa?
Do corpo-mercadoria – essa redução perversa da imagem do corpo preto
produzida pela história da escravidão – à mercadoria-corpo que é a prostituta Neusa
Sueli estancando a fome com seu sanduíche de mortadela; da sexualidade excessiva da
“bicha” Veludo à sexualização do corpo negro, esse corpo-objeto, ao qual não se
concede o direito ao desejo; e, a partir daí, até a fantasmagoria viril chamada Vado, cuja
expressão é a imitação de uma violência cuja gramática constitui uma gestualidade
macaqueada da violência naturalizada na figura do macho nacional.

 

DO EXCESSO E DA EXCEÇÃO


São excessos de vida e de morte, de potência e impotência, de grandeza e
insignificância, são vestígios de uma história marcada no corpo preto, feita de gritos e
de silêncios. Imaginar um futuro implica, para nós, lançar o olhar às cicatrizes e
permitir-nos a escuta de uma potência inaudita – provavelmente, a voz de um anseio
oprimido que jamais desistiu da vida. 


Nessa NAVLHA NA CARNE NEGRA, as figuras em jogo não são apenas
vítimas ou imagens de uma destituição absoluta. Elas são sobretudo figuras em luta: em
cena como na vida, a luta pela vida revela o quão portadoras de vida ainda são. Na
resiliência desses corpos adoecidos de sua negação, revela-se uma intuição silenciosa,
de que os atravessamentos produzem diferença, permitem que saibam ainda o que são;
como qualquer corpo doente, são corpos que imaginam cura.
DA CENA
A cena se constitui como um dispositivo-estúdio, em que as imagens são
captadas e transmitidas ao vivo, elaborando uma espécie de adesão: o ponto de vista da
câmera adere a Neusa Sueli. Presente o tempo todo em cena, a câmera, esse dispositivo
de olhar, de enquadramento, força a construção. O espectador vê o jogo em cena e
compara com o corte que assiste na tela. Os monitores revelam a dimensão do corte,
emoldurando o jogo e sua teatralidade. É preciso atravessar essa saturação da imagem,
do corte, do enquadramento, para conferir a suposta totalidade da cena, já saturada de
presenças, transitando entre o jogo ficcional do texto e o jogo estrutural da captação de
imagem. A luta entre as personagens é duplicada pela tensão gerada por esse trabalho de
captura da imagem.
O olhar dessa puta – essa Neusa Sueli preta, mulher, corpo-mercadoria –
contempla, porque precisa contemplar, a imagem de um futuro. Ela se mantém atenta,
examinando a miséria, o desespero e a desesperança, em busca de uma pista – o mais
sutil laivo de vida. Seu olhar há de nos indicar a direção do grande salto.

PRÊMIOS:

Indicação Lucelia Sergio melhor atriz  APCA 2018

 

Raphael Garcia ganhador do prêmio melhor ator coadjuvante (juri) Aplauso Brasil 2018

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RENAN TENCA