CABARÉ VODU

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A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é na verdade regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é criar um verdadeiro estado de emergência.

 

(Walter Benjamin)

 

            Refúgio. Primeiro, um tema. Foi assim que o diretor José Fernando e o Teatro de Narradores se aproximaram de um grupo de artistas haitianos pela primeira vez, surpreendidos pela enxurrada de pessoas albergadas no pátio da Missão Paz, no bairro do Glicério em São Paulo, ainda em 2014. Durante dois anos, esse primeiro contato foi se convertendo em uma forma complexa de vínculo. O espetáculo Cidade Vodu, que estreou em março de 2016, na MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), elaborou parte dessa experiência, fazendo compreender, ao menos aos artistas envolvidos, a efetividade de uma precariedade a um só tempo política, econômica, ética e estética. Refúgio não era apenas a situação dos haitianos no Brasil; refúgio também é uma condição que aos poucos fomos reconhecendo na vida violentada que margeia, por exemplo, a nossa cidade: periferias produzidas como forma de contensão, extermínio, controle – apagamentos programados de formas de vida, formas de resistência. Politizar os vínculos passou a ser a nossa questão. Como entender esse estágio do capitalismo em que por populações inteiras são espremidas entre a circulação forçada e o confinamento territorial policiado?

            Cabaré Nèg é uma tentativa de continuar o trabalho do vínculo, que é, também, um vínculo artístico, um trabalho poético.

            Dividido em Movimentos de mais ou menos trinta minutos, que podem ser independentes, o Cabaré Nèg resulta da colaboração entre artistas brasileiros e haitianos, mobilizando atores e músicos negros em cena.

             

SOBRE O CABARÉ

 

1.

            O cabaré não é uma forma inédita na lida do diretor José Fernando. No contexto do Teatro de Narradores, por exemplo, já em 2006 esboçou uma aproximação, ao escrever e dirigir o “Cabaré Paulista: Do Manifesto Contra o Trabalho”. Ali se dava a apropriação de um texto teórico (o “Manifesto” do Grupo Krisis/Robert Kurz), reelaborado na forma de canções, estas interpostas a falas e cenas, num jogo mediado por atores que transitavam entre as posições de coro e mestre de cerimônia, propondo uma relação direta com o público, em ambiente quase sempre reduzido, explorando uma certa proximidade. Desde lá, até 2016, experimentos esporádicos ocorreram, às vezes assimilados à estrutura de um espetáculo.

            Ainda em 2015, o diretor orientou, em parceria com o diretor Antônio Araújo (Teatro da Vertigem), no contexto do Departamento de Artes Cênicas da ECA, o projeto do ator e diretor Renan Tenca (também parceiro no Teatro de Narradores) intitulado “Cabaré García!”: um espetáculo que desenvolvia aspectos do cabaré, a partir de sua matriz dadaísta, explorando dispositivos sobre materiais da atualidade política no país.

             

2.

            De nada serve partir das coisas boas de sempre, mas sim das coisas novas e ruins: essa formulação de Brecht nos define a perspectiva. O cabaré, na chave que nos interessa, visa criar um espaço de interação, um campo comum, pressupondo uma espécie de “acordo” entre palco e plateia: trata-se de experimentar, juntos, uma “discussão” sobre o estágio atual das coisas, ou a “hora presente”. Esse pé na atualidade dá o tom da cena, e, aquele “acordo”, o teor do encontro; partir “das coisas novas e ruins” implica uma espécie de dissidência, se nos é permitido dizer assim: imaginemos que uma certa perspectiva de esquerda veio à lona, e que o horizonte – encurtado face às forças em movimento no país e no mundo –  nos exige buscar, desejar novos encontros. Nesses termos, a pergunta que nos move é: o que ainda somos capazes de imaginar juntos?

            Mais uma vez, se reconhece a inspiração dos cabarés dadaístas, ainda que nosso horizonte seja em tudo o mais rebaixado, comparado ao incêndio histórico que foi o início do século XX.

            Evocação, sem dúvida; nem tão celebrativo, um teatro de ideias cantadas e dançadas, festa de porão, em “qualquer” lugar; um trabalho de aprendizado de novas esperas, que são também balanço e ensaio.

 

CABARÉ VODU OU UM CABARÉ NÈG

 

            A proposição visa criar um espaço comum – atores, cantores, músicos e espectadores instauram, juntos, um espaço comum de “discussão” de temas, aspectos da hora presente. Luz e som: quadros em movimento: o coro, a emergência de corifeus-mestres-de-cerimônia; a pequena “orquestra caseira”; o comentário dos trabalhos e dos dias; o uso de filmes; o trabalho com as canções; as cenas do cotidiano; o registro paródico em chave profanatória; o escachar e escrachar das convicções assustadas e paralisantes; a mobilização de adereços e figurinos segundo um olhar de sequestro de elementos do cotidiano, como ready mades resilientes, a serem devolvidos à vida cotidiana – tudo como se estivéssemos num porão – um porão do qual, a qualquer momento, o coro pode emergir. Emergências.

O procedimento: a montagem refletida dos materiais, a produzir uma cena ao mesmo tempo estruturada e aberta ao trânsito das transformações que incidem sobre os materiais.

 

2.

            Uma Noite Preta: em cena, o universo da música negra e uma tradição poética expressa na presença do negro. Partimos então daquele diagnóstico já clássico de Aimé Cesaire: “Uma civilização que se revela incapaz de resolver os problemas que o seu funcionamento suscita, é uma civilização decadente. Uma civilização que prefere fechar os olhos aos seus problemas mais cruciais, é uma civilização enferma. Uma civilização que trapaceia com os seus princípios, é uma civilização moribunda. A verdade é que: a civilização dita 'europeia', a civilização 'ocidental', tal como a modelaram dois séculos de regime burguês, é incapaz de resolver os dois problemas maiores a que a sua existência deu origem: o problema do proletariado e o problema colonial; que essa Europa, acusada no tribunal da 'razão' como no tribunal da 'consciência', se vê impotente para se justificar, e se refugia, cada vez mais, numa hipocrisia tanto mais odiosa quanto menos susceptível de ludibriar. A Europa é indefensável” (Discurso sobre o colonialismo).

            O pressuposto é o de que “a questão do negro” não diz respeito a uma minoria, nem a uma maioria, mas ela é antes uma questão estrutural e estruturante de nossa sociedade. A começar pelo estatuto da escravidão entre nós: tecnologia e sociabilidade fundante do capitalismo moderno, a ordem escravocrata é o solo movediço sobre o qual se ergueu a modernidade europeia e sua retórica liberal. Essa percepção tornou-se ainda mais evidente com o trabalho do Teatro de Narradores, “Cidade Vodu”, dirigido e escrito por José Fernando, a partir da presença haitiana no Brasil.

 

3.

 

Em kreol haitiano, nèg significa, ao mesmo tempo: negro-humano-haitiano.

            Nas palavras do filósofo camaronês Achille Mbembe: do estágio atual da necropolítica que define a ordem mundial, resultará um “devir negro do mundo”, segundo práticas de exceção que oscilam do controle ao extermínio – seja numa periferia, ou num campo de refugiados. O devir, no entanto, ainda não está totalmente determinado. Esse o nosso ponto: o devir negro do mundo.

 

POÉTICAS DE EMERGÊNCIA

 

1.

 

            Há uma certa perspectiva que identifica na sociedade formas, práticas e aparelhos de subjetivação – portanto maneiras de ser e agir no mundo – que se estruturam e dinamizam como formas, práticas e aparelhos de controle. A esses, alguns pensadores dão o nome dispositivos:

 

 

Não seria provavelmente errado definir a fase extrema do desenvolvimento capitalista que estamos vivendo como uma gigantesca acumulação e proliferação de dispositivos. Certamente, desde que apareceu o homo sapiens havia dispositivos, mas dir-se-ia que hoje não haveria um só instante na vida dos indivíduos que não seja modelado, contaminado ou controlado por algum dispositivo. De que moo, então, podemos fazer frente a esta situação, qual a estratégia que devemos seguir no nosso quotidiano corpo a corpo com os dispositivos? Não se trata simplesmente de destruí-los, nem, como sugere alguns ingênuos, de usá-los de modo correto. (AGAMBEN, “O que é dispositivo?”)

 

2.

 

Aqui nos interessa flagrar a dimensão relacional que atravessa a lógica do dispositivo. Agamben retoma a crítica da religião e da ideologia fundada na fé segundo a qual existiriam meios de religar o que o “humano” separou:

 

A profanação é o contradispositivo que restitui ao uso comum aquilo que o sacrifício tinha separado e dividido. (idem)

 

            Eis que nos interessa essa ideia de restituição ao uso comum.

 

3.

            A inspiração do cabaré, desde a referência dadaísta, sugere também uma espécie de programa (esse de inspiração brechtiana): o esforço por diminuir, na prática, precisamente a distância entre produção e consumo, buscando formas de  inscrever essa esfera pressuposta do consumo (espectador, receptor) no processo de produção de sentido – produzir relações.

 

4.

 

            Poéticas de Emergência são, então, práticas de criação e pensamento, pautadas por uma interrogação sobre os nossos modos de inscrição e criação na  (e da) cidade. Essas poéticas de emergência resultam de práticas cotidianas e continuadas de investigação de dispositivos – ou contradispositivos – de cena, em sua dimensão relacional.

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RENAN TENCA